Já é tarde da noite quando o menino deita e espera, com olhos bem abertos, o pai chegar para contar uma história antes de dormir.

Os dois, aconchegados nas almofadas espalhadas sobre a cama, escolhem uma narrativa para a ocasião – uma daquelas que o menino ouve desde que estava na barriga da mãe. É a história do Patinho Feio, que foi contada ao pai por sua avó, quando ele ainda era criança, lá no sítio onde os avós moravam. Pois o pai começa e, junto com as palavras, vêm o cheiro da lenha queimando no fogão, o barulho das galinhas ciscando no terreiro e o calor do colo da avó, sempre aconchegante. O menino não conheceu o sítio, nunca se sentou no colo da avó de seu pai, não sentiu o cheiro da lenha e tampouco ouviu as galinhas ciscando no terreiro, mas nada disso é necessário para que ele saiba que aquela história tem muito mais a contar do que a vida de um pequeno cisne que nasce no ninho errado e é confundido com um filhote de pato.  

Desde que desenvolveu as habilidades de comunicação (principalmente a fala), o homem vem contando e recontando histórias. Pais que contam histórias aos seus filhos antes de dormir, enquanto esperam a comida ficar pronta ou no caminho para a escola, por exemplo, têm um papel de fundamental importância, pois é por meio de suas palavras que as narrativas criam vínculos, promovem momentos de confraternização, troca de experiências, união, aconchego e oportunidades de compartilhar emoções! Além disso, com essas histórias contadas de maneira aparentemente despretensiosa, é possível  transmitir costumes, valores, ideias, crenças e conhecimentos aos jovens que estão começando a vida numa sociedade, para que eles possam preservar suas raízes e tradições.  

Através das histórias, os pais também conseguem despertar a imaginação das crianças, instigar a reflexão, o raciocínio lógico, ajudar na difícil tarefa de aprender a lidar com as emoções e expectativas, assim como reconhecer aspectos da conduta humana e do convívio social. Com elas, é possível viver, em níveis de intensidade diferentes, as situações que fazem parte da vida e que demandam certa estrutura emocional, como a chegada de um irmão, a separação dos pais, a morte ou a mudança de cidade, por exemplo. 

Há também outro ganho enorme no desenvolvimento das crianças que ouvem histórias regularmente: a apropriação da linguagem, a aquisição de vocabulário e o contato com estruturas mais elaboradas da língua, o que será muito importante em seu aprendizado futuro. 

Por tantos motivos, fica evidente a importância das histórias na formação e no desenvolvimento infantil de maneira geral. É fundamental que os pais tenham consciência dessa importância, que reservem um tempo na rotina para a contação, valorizem as narrativas, seus possíveis desdobramentos e principalmente o vínculo que é criado a partir delas – e que permite o desenvolvimento da criança sob diversas óticas. É preciso mostrar interesse para despertar o interesse dos filhos, é preciso ter afeto para criar relações afetivas e é preciso também ter bastante sensibilidade: muito pode ser mostrado por meio de olhares, gestos e expressões!   

Uma criança que não vive a experiência de ouvir regularmente histórias contadas por seus pais ou outras pessoas queridas perde ótimas oportunidades de se desenvolver em diversos aspectos, tanto cognitivos, quanto sociais e emocionais. Além disso, perde momentos deliciosos de lazer compartilhados com seus pais, que são extremamente importantes para o crescimento saudável de uma pessoa. Por isso, é indispensável ressaltar a importância do afeto presente no momento de contação de histórias. Assim como o pai, aquele menino certamente guardará a história do Patinho Feio em sua memória, junto com os deliciosos momentos que os dois compartilham antes de dormir, mas, para ele – em vez de cheiro de lenha queimando no fogão – a narrativa trará algum cheiro presente em sua casa e isso ficará registrado junto com valores, crenças e conhecimentos que possivelmente seu pai dividiu com ele durante essas leituras. Porque contar histórias é muito mais do que narrar uma sequência de fatos – é trazer para o universo infantil um mundo imaginário que carrega uma infinidade de informações.   

 

Bruna Cardoso e Paula StranoAutoras: Bruna Cardoso e Paula Strano são pedagogas especialistas em alfabetização com mais de 10 anos de experiência em escolas, tendo atuado em sala de aula e com formação de professores. Hoje em dia, estão à frente do Projeto Ler o Mundo. Bruna é também psicopedagoga e Paula é escritora de livros infantis.
Conheça melhor o trabalho das autoras em: www.leromundo.bom.br e nas redes sociais: @ler_o_mundo no Instagram e @vamosleromundo no Facebook. 

  

 

 

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