Abrir um livro é como deparar-se com o mágico e fantástico, um mundo onde tudo é possível.

Príncipes que viram sapos, homenzinhos de um pé só, bruxas que voam em vassouras enfeitiçadas.

As palavras, quando colocadas de modo preciso, nos transportam para outros países, contextos, para outras vidas, que se relacionam com as nossas. Os mundos traçados por linhas claras, por meio de símbolos, conseguem transmitir pensamentos e sentimentos da mente de quem escreve para a mente do leitor. Coloca-nos diante do o amor, do medo, do ódio, da raiva …

Ler para uma criança não tem forma certa e nem a melhor hora. É quando podemos e queremos e como sabemos. Ler como uma experiência, deixar-se levar, se arrebatar.

“Se a experiência não é o que acontece, mas o que nos acontece, duas pessoas, ainda que enfrentem, o mesmo acontecimento, não fazem a mesma experiência. O acontecimento é comum, mas a experiência é para cada qual sua, singular e de alguma maneira impossível de ser repetida” (Larrosa*)

As letras do título, a capa ilustrada, as páginas encadernadas, amarradas, as palavras que se juntam, as imagens que as completam. Olhar para tudo ao mesmo tempo ou para um detalhe que chama a atenção, para o ator principal ou aquele no canto da página, apenas o coadjuvante.

Ler para uma criança é deixar que ela própria interprete a história, que atribua seus próprios sentidos para quilo que vê e escuta.

Quando as crianças se deparam com as caras engraçadas, de homens e mulheres que se parecem com bichos no livro “Caras animalescas”**, compartilham seus pontos de vista sobre o que aquelas pessoas parecem, ou poderiam ser.

“Um cavalo!, eu acho que ele parece meu pai” disse um menino uma vez.

As crianças inventam suas histórias quando olham para as figuras originais e rapidamente são convidadas, pelo autor, a inventar brincadeiras de semelhanças.

Vivi uma experiência onde as crianças olhavam para seus amigos e diziam com o que se pareciam, qual bicho cada um podia ser: um leão, um pinguim, uma vaca…

Elementos da vida cotidiana das crianças são temas comuns nos livros infantis. Ilan Brenman explorou esse universo com alguns títulos da coleção da Clara e do Gabriel. A partir da leitura desses enredos, as crianças se colocam  a pensar sobre esses personagens e sobre as suas próprias experiências, relacionando-as.

Vivi uma dessas cenas há pouco tempo quando um menino chamado Gabriel, ao interagir com um dos livros da coleção do Ilan Brenman “Gabriel já para o banho”*** se reconheceu no personagem, lembrou-se de momentos da sua vida, compartilhou afetos.

“Eu também brinco no banho, igual a esse Gabriel! Eu brinco com os meus brinquedos de banho. Eu tenho um super-herói dentro da banheira, e também tenho um barco de pirata e um patinho, igual a esse aí, desse Gabriel”

Os dois parecem ter mais semelhanças do que apenas o nome. Lembrar que também gosta de tomar banho, como aquele menino e se reconhecer no outro, naquele personagem, é um modo de viver a literatura, se conectar a ela. A vida real se torna tão fantástica quanto a invenção; e a memória trabalha para que a vivência seja atualizada ali, na pele daquele menino, do Gabriel que lê sobre um outro Gabriel, mas que poderia ser ele.

Ao ler para as crianças o livro “Shirley, saia da banheira!” ****, as crianças comentam sobre as ilustrações e olham para os detalhes que muitas vezes passam despercebidos por nós adultos.

“Olha lá! Um passarinho e uma coruja! Eu acho que eles são amigos!” elas disseram. As crianças interpretam as histórias também a partir das imagens, e tiram suas próprias conclusões “A mãe está muito cansada, ou ela deve estar triste” disse uma menina ao ver a mãe dessa mesma história com a cabeça para baixo.

Enquanto a Shirley toma banho, ela sonha e brinca com outros mundos, com cavaleiros e mares. As crianças entram junto com ela nesse universo à parte. “Ela voltou do esgoto para a banheira!”

No próximo artigo sobre literatura infantil vou convidar vocês a pensar sobre um personagem que tanto encanta e amedronta as crianças: o Lobo Mau.

 

AutoraSilvia Macul, pedagoga e psicóloga atua há vinte anos como educadora na Educação Infantil, com crianças de 0 a 5 anos. Acredita que a criança é capaz e autora de seus processos de aprendizagens; que é inventora e criativa.

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*Notas sobre a experiência e o saber da experiência – Jorge Larrosa 2002.

** Caras Animalescas, Ilan Brenman e Renato Moriconi – Companhia das letrinhas.

*** Gabriel já para o banho, Ilan Brenman e Silvana Rando -Brinque Book. Tem também: Clara, Gabriel, A tiara da Clara, As Botas do Gabriel, mesmo autor e editora.

**** Hora de sair da banheira Shirley!, Jonh Burningham – Cosac Naify, disponível na estante virtual.

 

 

 

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