alfabetização na educação infantil

Nos últimos tempos, temos visto muitas discussões sobre a idade certa para que uma criança se alfabetize.

Da parte dos pais e mães, há quem espere que os filhos comecem cedo e busque estimular o interesse com exercícios e atividades e há quem acredite que a primeira infância deve ser preservada e que as crianças não precisam preocupar-se com letras e números antes dos 6 ou até 7 anos.

São duas maneiras bem diferentes de se pensar a educação, não é verdade?

No entanto, estas duas visões, aparentemente tão distintas, têm um ponto em comum: a maneira como entendem O QUE É ALFABETIZAÇÃO.

E é sobre isso que vamos falar agora, pois, no nosso ponto de vista, a questão não é QUANDO alfabetizar uma criança e sim compreender a complexidade e a riqueza do processo de alfabetização, que aqui já adiantamos: é muito mais que a aquisição do sistema de escrita.

“Alfabetizar é também entrar em contato com diferentes gêneros textuais, compreendendo suas funções e seus usos. Isso significa, por exemplo, que a criança irá desde cedo, por meio da ajuda de um adulto, ouvir a leitura de contos e perceber que pode ler por prazer e ter hábito de leitura, que irá seguir uma receita escrita para fazer um bolo ou que irá ler um texto de uma enciclopédia para obter informações científicas que está pesquisando.”

Existem autores que chamam este contato com a diversidade de textos de letramento, mas nós preferimos considerar isso como parte do processo de alfabetização e explicaremos agora o porquê.

Para isso, precisamos parar para pensar sobre o que é leitura:

“Tradicionalmente vista como a decifração de um código, hoje em dia sabe-se que o processo de leitura é muito mais que isso. Ler envolve uma série de capacidades, que vão além da pura decodificação. Aliás, quem aprende a ler apenas decodificando não atribui significado ao texto e não compreende o que lê. Esse é um dos grandes problemas da alfabetização no Brasil: o analfabetismo funcional.”

As outras capacidades de leitura às quais estamos nos referindo são ligadas à compreensão, à interação e à interpretação. E são exatamente estas capacidades que precisam ser desenvolvidas pelas crianças desde muito pequenas!

Vejam a diferença: uma criança na Educação Infantil NÃO precisa focar demais na decodificação, o que vemos acontecer quando o processo de alfabetização é restringido a isso. Por esse motivo, consideramos o processo de alfabetização amplamente, colocando dentro dele, como já dissemos, o contato com textos diversos e, consequentemente, o desenvolvimento de capacidades de leitura como:

– Reconhecer a estrutura de um gênero textual, como uma receita, isto é, saber que ela se divide em título, ingredientes, modo de preparo, e saber sua função;

– Sentir prazer em ler, escolher um livro em uma biblioteca, reconhecer autores e ilustradores, expressar-se em relação à leitura;

– Motivar-se para buscar uma informação por curiosidade, como as características de um animal.

E uma criança pequena pode e deve conseguir fazer tudo isso com a ajuda de um adulto, pois consideramos que uma criança é capaz de ler antes de saber ler!

Outra reflexão importante que gostaríamos de deixar aqui é a respeito do controle que os adultos acreditam que têm sobre o aprendizado das crianças. Pensem conosco: muitas vezes, a decisão acerca da idade em que a criança vai começar a se interessar e pesquisar espontaneamente o mundo da leitura e da escrita NÃO é do adulto!

Tenho visto pais e mães frustrados, pois não querem adiantar o processo de alfabetização, e a criança aprende a ler sozinha aos 5 ou 6 anos! O contrário também acontece: adultos ansiosos chegam a começar a mostrar letras e fazer atividades com sons com crianças bem pequenas, de 2 ou 3 anos, que acabam se desinteressando pelo assunto, pois querem (e devem) brincar, é claro!

Crianças que vivem em ambientes letrados veem os adultos lendo e escrevendo, percebem a função social da leitura e da escrita, sendo assim, interessam-se por desvendar este lindo mistério – no próprio tempo, que pode variar (tirando casos extremos) de criança para criança.

“Em vez de nos perguntarmos se ‘devemos ou não devemos ensinar’, temos de nos preocupar em DAR ÀS CRIANÇAS OCASIÕES DE APRENDER. A língua escrita é muito mais que um conjunto de formas gráficas. É um modo de a língua existir, é um objeto social, é parte de nosso patrimônio cultural.”

 

Bruna Cardoso e Paula StranoAutorasBruna Cardoso Paula Strano são pedagogas especialistas em alfabetização com mais de 10 anos de experiência em escolas, tendo atuado em sala de aula e com formação de professores. Hoje em dia, estão à frente do Projeto Ler o Mundo. Bruna é também psicopedagoga e Paula é escritora de livros infantis.

Para conhecer melhor o trabalho das autoras: www.leromundo.com.br

 

0 respostas

Deixe uma resposta

Quer entrar na discussão?
Sinta-se livre para contribuir!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *