Brincar junto! Qual é a importância?

Theo, de 3 anos, desce de seu apartamento para o parquinho com sua bicicleta e uma bola na mão. Gabriel, de 2 anos, ao perceber seu vizinho, abre um sorriso e diz: “Oi!”, demonstrando alegria pelo encontro. Theo resolve ir até a pista para pedalar, Gabriel corre atrás dele buscando aproximar-se, os dois passam a brincar de velocidade, um na bike e outro a pé. Então, Theo diz: “Corre, corre!!!”, os dois circulam pelo caminho acompanhados de gostosas gargalhadas. Theo larga a sua bicicleta e sobe na grande estrutura de madeira, onde tem uma ponte até chegar à casinha onde fica o escorregador. Gabriel sobe também. Theo escorrega e em seguida pega sua bola, corre pelo espaço, joga-a em cima deste brinquedo, sobe para pegá-la, escorrega e corre novamente. Gabriel continua atrás do seu vizinho. Por instantes os pais de Theo passam a ficar preocupados, falam diversas vezes para ele emprestar a bola. Depois de um tempo, Theo resolve soltar seu brinquedo no chão, os pais ficam aliviados. Mas, qual não foi a surpresa, ao constatarem que o interesse de Gabriel não estava no objeto, mas sim na ação de Theo, pois continuou acompanhando-o e imitando-o em todas as suas ações, pendurando-se nas cordas, mexendo nas bolinhas que cobriam os parafusos, passando por debaixo da ponte, com trocas de olhares e risadas de cumplicidade por aquilo que realizavam.

Os pais, de maneira geral, querem que seus filhos se relacionem, que brinquem com as outras crianças. Quem não quer, não é mesmo? Quando isso acontece? Como?

Desde pequenos os bebês demonstram interesse pelos que estão ao seu redor, trocam sorrisos, expressões, gestos. Quando encontram outra criança é comum vê-los observando-a e imitando-a, mesmo que à distância, ou, até mesmo, ao sentar-se ao lado agindo sozinhos e em paralelo.

Portanto fiquem tranquilos, é com o amadurecimento que a criança vai construindo ações compartilhadas com trocas efetivas. Por volta dos 3, 4 anos, passam a montar uma torre juntas, usando a imaginação para compor um enredo, formam uma banda ao tocarem instrumentos, mostram livros uns aos outros…

Nós adultos muitas vezes criamos expectativas sobre nossos filhos, desejamos que aproximem-se dos outros, que sejam empáticos, carinhosos, respeitosos. Claro que elas existem e estão presentes na relação, porém, temos que ficar atentos quando nossas expectativas se sobrepõem às experiências deles, não permitindo que construam suas relações com maior liberdade, na busca de caminhos para os seus desencontros, seus conflitos.

Existem muitas coisas que envolvem o relacionamento deles na construção de ações compartilhadas.

A criança é autocentrada

A criança percebe o seu entorno a partir de sua perspectiva, portanto, não consegue se colocar no lugar do outro e procura ser satisfeita naquilo que deseja, sendo assim, não entende o desagrado do outro quando o aperta ou quando tira-lhe o brinquedo…

Nosso papel, como adultos, é de possibilitar um ambiente que favoreça essas interações e ajudá-la a olhar para o desagrado do outro, com a intenção de colaborar para que construa gradativamente a percepção para além de si, considerando aqueles que a rodeiam.

O desafio de emprestar

O desafio de emprestar algo é outra questão que muitas vezes nos deixa preocupados. Lembrem-se que a criança está começando sua vida e inicialmente passa por esta fase autocentrada, portanto, é muito difícil emprestar o que é seu ou aquilo que está usando.

Será que obrigá-la a emprestar é uma maneira que a ajuda olhar para os outros e aprender a ser generosa? Ou será que ela se sentirá ameaçada pelo outro?

Será que nós adultos emprestamos os nossos pertences? Quais? E aqueles que são carregados de sentidos e sentimentos?

Tem vezes em que a criança está tão envolvida com aquilo que realiza e quando chega outra criança ela é obrigada a interromper a sua ação simplesmente porque o outro deseja aquilo que ela usa. Como seria para você interromper algo que tem se empenhado com grande atenção?

É importante que eles aprendam a dividir, a compartilhar, mas aqui estou trazendo outra faceta para esta questão, para podermos refletir quando isso faz sentido, pois ao ameaçar e obrigar podemos estar agindo no caminho oposto daquilo que pensamos ser o melhor para eles, poderão proteger-se dos outros ao invés de abrir-se para a relação.

É importante, nós como adultos, estarmos ao lado da criança ajudando-a a lidar com a situação, não como uma ameaça de perder aquele objeto, mas sim como um encorajamento para se relacionar e construir ações com o outro. Compartilhar com o outro é proveitoso no momento em que ajudamos as crianças a valorizar as ações em companhia, acima dos objetos em si.

Dialogue sempre com a criança, considerando que, junto com o adulto, é ela quem resolverá com o outro o conflito. Aqui abordarei algumas possibilidades:

Estou vendo que você está usando. Quando acabar você empresta? Vamos falar para ele?”

 “Que tal brincarem juntos?”

 “Você quer esse carro? Mas agora quem está usando é o outro. Vamos conversar com ele? Ele não quer dar agora, você precisa esperar.”

Os conflitos

Por que queremos tanto proteger nossos filhos de tudo aquilo que possa acontecer com eles? Claro que não queremos que eles sofram. Muitas vezes ficamos preocupados e procuramos poupá-los.

São diversos os motivos para os conflitos acontecerem: pelo uso de objetos, pelo interesse em brincar de algo com alguém, pela dificuldade em escutar a ideia do outro, por sentir-se rejeitado quando o parceiro escolhe outra criança para brincar… É no embate das relações que aprendem a expor seus sentimentos, seus desejos, e a negociar.

A vida é repleta de desafios e conflitos, ao invés de poupá-los não seria melhor ajudá-los a fortalecer-se e a enfrentá-los?

Quando falo sobre ajuda, entende-se que não é fazer pelo seu filho, mas, sim, estar ao seu lado, compreendendo seus sentimentos, refletindo junto sobre os acontecimentos e levantando possibilidades de ações. Muitas vezes eles mesmos já nos trazem alternativas, somente precisamos estar presentes para estabelecer esse diálogo.

Comunicação

No inicio da vida a criança comunica-se a partir de gestos. À medida que tem a oportunidade de conviver com outras crianças, ela se depara com a necessidade de fazer-se entender e aos poucos vai desenvolvendo a linguagem oral. Começa com algumas palavras, atribuindo sentido para aquilo que está ao seu redor, aos poucos amplia o seu vocabulário e passa a construir frases, conquistando maior complexidade em seus pensamentos e maior clareza em dialogar.

Aprendizagem

Nos encontros que as crianças estabelecem, quantos sentidos são criados?!!! Quantas possibilidades de ações são descobertas?!! Junto com o outro procuram pelo espaço pequenos objetos, folhas, pedras e escondem seus tesouros cavando buracos na areia, vestem capas e vão desbravar o “mundo” enfrentando os lobos imaginários, constroem torres gigantes na busca de alcançarem o céu, plantam sementes e esperam que nasçam minhocas.

Sendo assim, os momentos em que as crianças tem a possibilidade de brincar livremente é de grande valor. Nesta relação uma rede de conexões é tecida e vai constituindo um sujeito e, desta forma, aprendem a se comunicar, a se colocar, se defender, negociar, trocar experiências, pensamentos, emoções, sentimentos e vão construindo sua própria identidade, colaborando para a construção da identidade do outro e do seu coletivo.

Como é para nós adultos brincar com os nossos filhos?

Por que nós adultos muitas vezes orientamos as ações das crianças? “Joga aqui. Coloca essa peça lá. Agora você tem que pular.” Qual mensagem passamos para elas quando nos relacionamos assim? Será que se sentem seguras naquilo que realizam? Será que se sentem capazes? Será que existe um jeito certo de brincar?

Somos nós, adultos, que muitas vezes aprendemos com as crianças a arte de brincar, vivenciado a riqueza de poder criar, sem julgamentos, sem a necessidade de sabermos como fazer, somente com o compromisso de estar presente com o outro e dialogar. Quando estamos presentes com nossos filhos na experiência, os laços se fortalecem ainda mais.

 

Andrea JotaAutora – Andrea Jota, sou pedagoga, especialista em Gestão Pedagógica e Formação em Educação Infantil, atuo com crianças há mais de vinte anos, inicialmente com aulas de ballet clássico e expressão corporal, nos últimos quatorze anos tenho-me dedicado à educação infantil.Acredito no protagonismo das crianças, na valorização e respeito às família e no diálogo como um caminho para a conscientização dos cuidados na primeira infância, na formação de sujeitos autores, capazes de transformarem o seu entorno e de se realizarem.

 

 

 

2 respostas
  1. Ismael Piccirillo
    Ismael Piccirillo diz:

    muito interessante esse olhar, me vi em vários momentos do texto, especialmente tentando fazer com que meu filho seja o mais desapegado possível com seus brinquedos…

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    • Rosaria
      Rosaria diz:

      Olá Ismael, ficamos felizes que gostou do artigo. Ser pais informados e conscientes ajuda a agir de forma melhor com os nossos pequenos.
      Uma boa tarde

      Responder

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