Maquiagem infantil: uma brincadeira saudável?

Pretendo nesse artigo falar sobre a maquiagem infantil como elemento para o faz de conta.

A maquiagem pode ser usada pelas crianças não para transformá-las em adultos em miniatura, mas como possibilidade de brincadeira, de dramatização.

Numa situação onde uma criança faz de conta que é a mamãe da história da Chapeuzinho Vermelho, por exemplo, ela precisa andar como faz uma mulher adulta, pode vestir uma saia e até colocar um salto alto e alguma maquiagem, fingindo ser uma mãe como aquela que ela conhece.

Quando representa a mãe ao pedir à Chapeuzinho que vá à casa da vovó levar uma cesta de doces, coloca a mão na cintura e o dedo indicador na frente do corpo, como se estivesse dando-lhe ordens. Nesse exercício de fazer de conta, de representar, as crianças incorporam as percepções e emoções passadas, re significadas ali, naquela experiência. É a criança quem dá o tom a essas cenas, é o faz de conta ganhando tom, importante linguagem da infância.

A criança quando pinta seu rosto de princesa ou de Lobo Mau, por exemplo, brinca de transformar-se em um outro e permanecer o mesmo. Uma das características da dramaturgia é ser, mesmo que por um breve momento, um outro.

Para isso as crianças acessam alguns dispositivos: compreendem e incorporam características do personagem, fazem como se fosse e inventam um enredo com situações em que aquele personagem se coloca – um Lobo que pode ser bom mas que também pode ser bem mau; uma princesa dos contos de fadas ou alguma inventada.

A invenção de cada Lobo ou de cada princesa, em cada uma das experiências, é o que importa. Poder representar, colocar-se no lugar de um outro e combinar os conhecimentos e a imaginação de maneira completamente original.

Entendo que aqui existe uma linha tênue entre o desejo de contar / dramatizar a partir de um material literário pronto (com os personagens, canções, trechos) e entre a brincadeira de faz de conta. Essas duas maneiras de viver a representação tem características que se diferem, mas não podem ser colocadas em extremos e polos opostos. As crianças colocam-se nas diversas situações e fazem uso da brincadeira (essencialmente infantil) para se colocar no lugar de um outro, entrar em acordos, fazer de conta. Quando a criança se veste de mamãe e para tal precisa passar um pouco de batom, assim como faz a sua mãe, a maquiagem serve como mais um apetrecho para a brincadeira, assim como a saia, o sapato, os gestos. Os materiais dispostos no ambiente (a maquiagem é apensa um deles), são aliados das crianças para as representações, para as suas brincadeiras. Espaços montados pelo adulto podem gerar conexões e muitas possibilidades – tecidos, capas, lápis aquarelados, espelhos, caixas, entre outra.

Vestidas de mamãe, os apetrecho, como uma saia e também o batom, ganham extrema importância no espetáculo-brincadeira, as crianças rodam a saia, fazem caretas de braveza ou de alegria, assim como as mães de cada uma. Trata-se aqui das múltiplas relações e emoções entre elas, é do fazer sentir e fazer sentido. É expressão da arte, da brincadeira.

A criança que pega emprestado da mãe um estojo de maquiagem, pode não usá-lo de forma convencional, mas sim num movimento de exploração – dos tons, sensações, texturas. Podemos ainda dar a elas um pouco de lápis aquarelado, para que experimentem diferentes traçados na pele para ver como ficam com a presença de um olhos amarelos ou um nariz roxeado, por exemplo, num jogo onde o pintar vira a própria brincadeira – um batom todo espalhado nos lábios ou um nariz como o de um palhaço. O adulto presente pode pintar junto, descobrir tonalidades e possibilidades de traços.

A maquiagem pode, portanto, ser vista como a possibilidade de criação, de dramatização, de jogo.

 

Autora: Silvia Macul, pedagoga e psicóloga atua há vinte anos como educadora na Educação Infantil, com crianças de 0 a 5 anos. Acredita que a criança é capaz e autora de seus processos de aprendizagens; que é inventora e criativa.

 

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