Já pra rua!

Para o pleno pleno desenvolvimento das crianças, um convite: brincar ao ar livre!

Feliz, cheia de coragem e saúde. É essa imagem que você tem quando fecha os olhos e imagina uma criança brincando em uma praça, em um parque ou na praia?

Pois é exatamente assim que observamos. Brincar ao ar livre é, comprovadamente, uma das melhores coisas que podemos oferecer aos pequenos. É nesse ambiente que eles se mostram muito inteiros em seus processos e pesquisas.

Você já parou para pensar em tudo que a criança precisa fazer quando sobe em uma árvore? Como seu corpo trabalha, para onde vai sua atenção, que iniciativa tomar na escolha de onde pisar ou segurar? E que satisfação é essa que ela sente, ao completar tal jornada, após todas as tentativas e decisões?

Brincar não é uma mera atividade da criança, mas uma forma de habitar o mundo. Assim, explorando o ambiente natural (do lado de fora) e redefinindo os espaços e os tempos através dessa forma maneira de ser e estar, surgem as descobertas e a criatividade é aguçada, já que a liberdade de as crianças experimentarem suas ideias e os materiais as ajudam a construírem relações comentre elas e o mundo que habitam.

Em sua coluna no site Conexão Planeta,a diretora do programa Criança e Natureza, do Instituto Alana, Lais Fleury revela que o ambiente ao ar livre convida as crianças a exercerem verbos genuínos da infância, como correr, pular, escalar, escorregar e explorar. “Elas amam a sensação do corpo balançando, gostam de sentir o frio na barriga quando escorregam e de realizar o esforço de escalar até o galho mais alto da árvore. Esses movimentos potentes e expansivos do corpo são incompatíveis com controle e com o previsível. O medo de a criança se machucar é nutrido pela nossa falta de intimidade com a natureza e oprime os impulsos do corpo e os gestos espontâneos no brincar. São efeitos colaterais da vida urbana”, escreveu aqui.

Em junho deste ano, o Criança e Natureza realizou no Sesc Interlagos o I Seminário Internacional sobre o tema. Durante doiVer Posts dias, especialistas de diferentes países abordaram a importância do brincar ao ar livre, em contato com a natureza. Entre os projetos apresentados, conhecemos o peruano Joaquín Leguía, da ANIA – Associação para la Niñez Amazonica, cujo propósito é transformar a vida de crianças e famílias através do cultivo de pequenas hortas em seus espaços de convivência e comunidade – sejam escolas ou bairros.

Para Joaquín, é fundamental permitir que as crianças brinquem do lado de fora, pois ali estão possibilidades muito ricas e desafiadoras de conhecimento, e que dialogam com a essência do ser humano: “A criança não é um adulto incompleto. É um ser completo que tem suas próprias capacidades, e temos de valorizar isso. Um ser que tem, inclusive, capacidades que o adulto perde, como, por exemplo, de se comunicar com a parte espiritual de todos os elementos, como uma pedra.”

Mas então, como falar dos benefícios do brincar ao ar livre sem mencionar os desafios e riscos que isso traz, já que essa é uma grande preocupação dos pais?

No começo de 2018, circulou pelas redes uma fotografia de crianças brincando em um parquinho de Londres: o Princess Diana Playground, dentro do Kensington Gardens. Entre caixas, ferragens, lanças, ferramentas cortantes e materiais não estruturados, uma placa-convite alertava as famílias: “Os riscos aqui foram fornecidos intencionalmente para que o seu filho possa desenvolver uma valorização do risco em um lugar de brincar controlado, em vez de assumir riscos semelhantes em um mundo muito mais amplo e não regulamentado.”

O ação fazia –e ainda faz– parte de um movimento interdisciplinar no Reino Unido, formado por educadores, arquitetos e outros especialistas da infância que defendem a importância desse tema para o desenvolvimento das crianças, especialmente nos ambientes abertos. Para eles, são muitas as competências aprendidas por meio de riscos controlados. Uma delas, unânime, é a resiliência. E então: coragem; consciência sobre suas próprias limitações; autoconfiança pra vencer desafios; conhecimento sobre si e o mundo; e, acima de tudo, oportunidade para desenvolver a capacidade de avaliar riscos, e, consequentemente, saber evitar o que de fato é perigoso.

O britânico Tim Gill, autor de No Fear (ou “Sem Medo”, em tradução livre), e consultor e fundador da rede Rethinking Childhood, acredita que os riscos ajudam as crianças a se livrar dos perigos. Ao ter acesso aos riscos, elas aprendem a planejar a brincadeira, desenhar o ambiente, supervisionar o que estão fazendo e, então, fazerem um bom uso do que criam e do lugar onde estão.

Assim, não precisamos retirar as pedras do parquinho para colocar tapetes macios no lugar, pois é importante que a criança se movimente sabendo que é preciso estar atenta para não se machucar em uma queda. O movimento de seu corpo e as conexões cerebrais que ela faz, em meio aos desafios, são enormes. Quanto maior a consciência sobre a materialidade de tudo ao redor, mais conhecimento e propriedade essa criança terá para criar, mais relações ela irá estabelecer e mais cuidadosa ela será.

Dar liberdade e permitir que se brinque ao ar livre, com todos os seus desafios, não é abandono –muito pelo contrário: é oferecer às crianças que desenvolvam sua autonomia e sintam-se felizes com suas conquistas e capacidades! Além disso, estar em contato com a natureza e com o outro, animal social que somos, nos dá um grande prazer. Portanto, não há mistério: lembre-se das suas brincadeiras de infância, chame as crianças e vão pra rua, já!

Saiba mais:

1 – Atualmente, dados de pesquisa comprovam que a conexão com a natureza traz muitos benefícios para o desenvolvimento e para a saúde das crianças. No site do Criança e Natureza, programa que traz como premissa o olhar para as diferentes infâncias em contato com o brincar ao ar livre, é possível ler traduções de estudos teóricos e práticos sobre o assunto, além de ter acesso a uma excelente bibliografia audiovisual, como o vídeo-inspiração do britânico Tim Gill.

Leia:

  1. Criança e Natureza: os benefícios de brincar ao ar livre.
  2.  A ISGA – International School Grounds Alliance é uma rede internacional que se propõe a construir espaços de brincar desafiadores para as crianças na escolas.
  3. Entrevista com a educadora Ana Carol Thomé, do Ser Criança É Natural e o projeto Caixas da Natureza.

 

Autoras: Ana Paula Campos e Thais Caramico / Estúdio Voador. Somos um estúdio de criação de conteúdo para crianças, famílias e educadores. Valorizamos o protagonismo e as linguagens das crianças, e nossos projetos se inspiram nas artes, nos livros, no design, na ciência, na natureza e no brincar. Conheça nosso trabalho e nossos projetos especiais em www.estudiovoador.com, @inventorios e @bibliotecadefora.

 

“Favoreça as explorações e as experimentações da sua criança no ato de brincar, propiciando para ela os brinquedos da nossa loja virtual

(Playlab)

 

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