Acho que muita gente já viveu aquela situação em que a criança ganha um presente e acaba dando mais valor à caixa do que ao brinquedo que vem dentro!

Os pequenos são capazes de criar as mais diversas brincadeiras com objetos inusitados: caixas se transformam em carros e barcos, galhos em espadas e varinhas de condão…

Você já se perguntou por que isso acontece?

A criança tem uma capacidade enorme de imaginar e criar brincadeiras com o que possui disponível no momento e mistura isso com as referências que tem do mundo que a cerca.

Essa capacidade da criança de pegar qualquer objeto como símbolo para representar situações é chamada de jogo simbólico, o famoso jogo do faz de conta!

O psicólogo e filósofo suíço Jean Piaget (1896-1980) estudou profundamente e classificou a evolução dos jogos simbólicos e, com base na teoria do autor, neste artigo, iremos mostrar a importância desses jogos para o desenvolvimento da criatividade das crianças.

Piaget possui um trabalho pioneiro em relação ao desenvolvimento infantil, realizou vários estudos sobre o raciocínio das crianças que impactaram as áreas da psicologia e da educação. A base de sua teoria quebrou o pensamento tradicional de que a criança possui uma mente vazia e precisa ser preenchida com conhecimento externo (de fora para dentro), para o autor, as crianças são capazes de construir conhecimento testando suas próprias teorias sobre o mundo.

Nas fases descritas por Piaget para o jogo simbólico, grosso modo, é possível perceber como a criança vai aprimorando o faz de conta. A evolução descrita pelo autor é minuciosa, portanto, aqui, nos cabe trazer apenas alguns exemplos deste processo para que mães, pais e interessados em educação possam compreender o assunto com um pouco mais de profundidade.

A evolução do jogo simbólico 

Partindo de um faz de conta mais primitivo, em que imita suas próprias ações cotidianas, como dormir (dos 18 aos 24 meses, mais ou menos), aos poucos, a criança começa a projetar os esquemas simbólicos em objetos novos, fazendo seu ursinho ou sua boneca dormir, chorar ou comer, por exemplo. Depois, ela passa a ser capaz de transformar um mesmo objeto em várias possibilidades: um cilindro de papelão (daqueles que sobram quando acaba o papel higiênico ou o papel toalha) pode ser uma luneta, em seguida uma varinha e, num piscar de olhos, transformar-se em um foguete. A capacidade dos pequenos de imaginar é linda de se ver!

Assim, o desenvolvimento do jogo simbólico continua agregando a imitação do que é visto ao redor a muitas combinações, envolvendo a recriação da realidade e a invenção de seres imaginários. Em uma fase seguinte – dos 4 aos 7 anos, mais ou menos – o jogo simbólico continua sendo muito importante e visível, mas passa a ser mais próximo do real, trazendo cenas ordenadas e o diálogo com ideias continuadas que chegam a ser narrativas com início, meio e fim. As brincadeiras passam a ser compostas por materiais como berços e fogões: “os temas são simbólicos, todavia os pormenores do jogo são muito próximos à realidade concreta” e as brincadeiras começam a incluir várias crianças, que exercem diferentes papéis.

Na fase que vai dos 7 aos 12 anos, mais ou menos, o simbolismo vai declinando e dando espaço ao jogo de regras. O jogo simbólico que persiste nesta fase é muito ligado aos interesses pessoais de cada criança – é bem organizado, sequencial e pode ser ligado à construção e ao trabalho manual.

O papel dos adultos

Uma coisa muito importante de ser ressaltada é que o jogo simbólico só aparece no faz de conta espontâneo. A partir do momento em que os adultos interferem propondo algum tipo de direcionamento, como um teatro, a brincadeira deixa de ser considerada um jogo simbólico.

Entretanto, isso não significa que os adultos não possam fazer nada para promover o faz de conta! Preparar espaços propícios para que a brincadeira aconteça e brincar junto em alguns momentos (como parte integrante) é muito importante! Inclusive, é possível instigar a imaginação das crianças para que aproveitem ao máximo essa capacidade de simbolizar, que é tão importante!

Incrementar o faz de conta com brinquedos adequados, que propiciam a interação, como minicozinhas (ou até uma cozinha de lama, a famosa mud kitchen!), comidinhas de feltro e de madeira, panelinhas, pode ser muito interessante! Como vimos acima, existe uma fase em que as crianças usam materiais mais próximos à realidade no jogo simbólico.

Além disso, existem materiais que são chamados em inglês de open-ended (em aberto), que servem exatamente para aguçar a imaginação e, consequentemente, desenvolver a criatividade. Vimos que as crianças menores fazem isso com muita naturalidade, mas é possível incentivar a continuidade do uso da imaginação nas crianças maiores por meio do uso desse tipo de material.

Os materiais aos quais nos referimos são: caixas de papelão, tecidos (que podem se transformar em fantasias e cabanas), blocos de madeira para construção, pedras, galhos, entre outros. É importante ressaltar aqui o papel do adulto garantindo a segurança na hora da escolha e do uso do material e supervisionando a brincadeira.

Além de propiciar espaços propícios para que a brincadeira aconteça, o que os adultos precisam ter em mente é que no jogo simbólico a construção das regras da brincadeira é feita pelas crianças durante o ato de brincar: “Não existe jogo sem regra. Contudo, é preciso ver que a regra não é a lei, nem mesmo a regra social que foi imposta de fora. Uma regra da brincadeira só tem valor se for aceita por aqueles que brincam e só vale durante a brincadeira. Ela pode ser transformada por um acordo entre os que brincam.”

No jogo do faz de conta, a criança experimenta diferentes papéis e comportamentos novos. No faz-de-conta, a criança cria regras, enredos, novos brinquedos, novas possibilidades de se relacionar. Eis onde mora o mais genuíno processo de criação.

 

Bruna Cardoso e Paula StranoAutoras: Bruna Cardoso e Paula Strano são pedagogas especialistas em alfabetização com mais de 10 anos de experiência em escolas, tendo atuado em sala de aula e com formação de professores. Hoje em dia, estão à frente do Projeto Ler o Mundo. Bruna é também psicopedagoga e Paula é escritora de livros infantis.

Para conhecer melhor o trabalho das autoras: www.leromundo.com.br
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