O que, afinal, são jogos educativos?

Por sermos educadoras, costumamos receber perguntas sobre sugestões de jogos e, quase sempre, percebemos na fala dos pais e das mães que não estão se referindo aos jogos comuns, encontrados nas grandes lojas de brinquedos, pois querem sugestões de jogos diferentes, aqueles conhecidos como “educativos”.

E o que, afinal, diferencia um jogo educativo de um jogo comum?

Ficamos com esta pergunta na cabeça porque, de verdade, é uma definição muito difícil de se fazer e de grande responsabilidade, visto que as crianças aprendem e se desenvolvem jogando qualquer jogo, mesmo com um simples baralho (existem variações maravilhosas de jogos de baralho que trabalham, inclusive, habilidades matemáticas).

Nossa ideia neste artigo é tentar mostrar a importância dos jogos de maneira geral, falar um pouco sobre os tipos de jogos que existem, para que pais e mães consigam entender as ideias que estão por trás do termo “jogos educativos”.

A ideia do “jogo educativo” surge no momento em que o jogo sai do contexto da brincadeira, em que o propósito é puramente lúdico, e vai para um contexto em que se espera que a criança aprenda algo com aquela atividade. E, sim, em escolas e no consultório é possível explorar um jogo de maneiras diferentes e com objetivos mais aprofundados e definidos, mas sabemos que as crianças aprendem e se desenvolvem de alguma maneira com qualquer jogo*.

Quer saber como?

Nas situações de jogo, em primeiro lugar, precisamos compreender e respeitar as regras. Isso significa: organizar-se para jogar, esperar por sua vez de jogar, prestar atenção na jogada do outro, ir até o final da partida, saber ganhar e saber perder, por exemplo. Hoje em dia, estas habilidades ganharam grande status, são consideradas competências socioemocionais muito importantes no desenvolvimento das crianças.

Os educadores perceberam que o desenvolvimento humano vai além do aspecto cognitivo, é preciso integrar as emoções e a socialização em qualquer processo de aprendizagem. Ou seja, em qualquer situação de jogo de regras, seja num jogo da memória qualquer, por exemplo, os participantes estarão desenvolvendo essas tão importantes habilidades.

Anita Lilian Zuppo Abed, no artigo “O desenvolvimento das habilidades socioemocionais como caminho para a aprendizagem e o sucesso escolar de alunos da educação básica”**, traz o conceito do que são habilidades socioemocionais. Apesar de o artigo ser focado em reflexões sobre o ambiente escolar, o trecho em que ela descreve  tais habilidades nos ajuda a compreender e aprofundar o conhecimento sobre o conceito em questão.

A autora traz as habilidades socioemocionais divididas em 5 grupos, denominados “Big 5”:

“✓  Openness (Abertura a experiências) => estar disposto e interessado pelas experiências – curiosidade, imaginação, criatividade, prazer pelo aprender…

✓  Conscientiousness (Conscienciosidade)=> ser organizado, esforçado e responsável pela própria aprendizagem – perseverança, autonomia, autorregulação, controle da impulsividade…

✓  Extraversion (Extroversão)=> orientar os interesses e energia para o mundo exterior – autoconfiança, sociabilidade, entusiasmo…

✓  Agreeableness (Amabilidade- Cooperatividade) =>  atuar em grupo de forma cooperativa e colaborativa – tolerância, simpatia, altruísmo…

✓  Neuroticism (Estabilidade emocional) => demonstrar previsibilidade e consistência nas reações emocionais – autocontrole, calma, serenidade…

Chama muito a atenção o fato das iniciais em inglês das cinco categorias dos “Big 5” formarem a palavra “ocean”. O oceano é uma metáfora maravilhosa para as habilidades socioemocionais: imensidão, profundidade, mistério, zonas abissais, às vezes uma marola reconfortante e calma, às vezes um maremoto devastador…”

Como vimos acima, muitas destas competências são desenvolvidas nas situações de jogos de regras. Saber ganhar e perder, por exemplo, envolve autocontrole, terminar o jogo envolve perseverança.

Valer ressaltar que acreditamos na importância do uso de jogos de mesa e de tabuleiro, pois assim há contato direto com outras pessoas, diferentemente do que ocorre nos jogos digitais. Não estamos aqui dizendo que os jogos digitais são ruins, sabemos que existem boas versões, que, inclusive, desenvolvem muitas habilidades, mas acreditamos que, no desenvolvimento de competências socioemocionais, a socialização que acontece no momento, no tête à tête, é insubstituível.

Além das habilidades socioemocionais, sabemos que os jogos trabalham habilidades cognitivas e relacionadas ao raciocínio lógico e matemático, como a memória e o raciocínio antecipatório (estratégia e planejamento), por exemplo. Por isso, aqui, daremos algumas sugestões bem simples que você pode até já conhecer, mas que, sabendo dos benefícios que eles podem trazer para o desenvolvimento do seu filho, temos certeza de que entrarão na rotina da sua família, mesmo que seja na espera do prato em um restaurante ou na sala de espera de um consultório médico!

No final das contas, todo jogo é educativo quando se acredita na importância do desenvolvimento social e emocional de uma criança!

Nossas sugestões:

1- Jogo da velha

Número de jogadores: 2

Preparação: desenhe numa folha de papel um tabuleiro com três linhas e três colunas.

Como jogar: dois jogadores escolhem as marcações com as quais desejam jogar (normalmente um ‘círculo’ e um ‘x’) e vão preenchendo, cada um na sua vez, as lacunas vazias do tabuleiro.

Objetivo:  preencher três círculos ou x em linha, seja ela vertical, horizontal ou diagonal, enquanto tenta impedir seu adversário de fazer o mesmo.

Caso um dos jogadores consiga colocar três elementos em linha, é o vencedor. Caso nenhum consiga, dá empate, e quando isso acontece, costumamos dizer que “deu velha”.

2- Jogo dos pontinhos

Número de jogadores: 2

Preparação: preencha uma folha com pontinhos em fileiras horizontais (e, consequentemente também verticais), mais ou menos com a mesma distância.

Como jogar: cada jogador, na sua vez, deve juntar dois pontinhos, com o objetivo de formar um quadrado. Quem forma o quadrado coloca a letra inicial do seu nome dentro dele. Quem forma um quadrado deve juntar outros dois pontinhos automaticamente depois disso.

Objetivo: o jogo acaba quando todos os pontinhos estiverem ligados e ganha o jogo quem conseguir formar mais quadrados.

 

Bruna Cardoso e Paula StranoAutorasBruna Cardoso e Paula Strano são pedagogas especialistas em alfabetização com mais de 10 anos de experiência em escolas, tendo atuado em sala de aula e com formação de professores. Hoje em dia, estão à frente do Projeto Ler o Mundo. Bruna é também psicopedagoga e Paula é escritora de livros infantis.
Conheça melhor o trabalho das autoras em: www.leromundo.com.br e nas redes sociais: @ler_o_mundo no Instagram e @vamosleromundo no Facebook!

 

*Primeiramente, queremos deixar claro que faremos aqui um recorte e falaremos sobre os jogos de regras. Sabemos da importância do jogo simbólico (presente no faz de conta, em que a criança cria e representa papéis), por exemplo, mas um assunto como este demandaria um novo artigo. Além disso, sabemos que quando as pessoas se referem a “jogos educativos”, estão querendo dizer jogos de regras, caso contrário diriam: brincadeiras educativas.

**Revista Construção Psicopedagógica, vol. 24, São Paulo, 2016

 

 

 

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