Como podemos lidar com as decepções da criança

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O desafio de lidar com a infinidade das vontades da criança e suas decepções.

Luisa quer a flor do vaso, o carrinho do primo, a boneca da amiga, o telefone do tio, o computador da mãe, a chave do carro, o controle da TV, o carrinho do João, a ação de Luca. Ela quer, grita, fica brava, decepcionada, pega, depois larga e vai passando pelos lugares pegando tudo aquilo que vê na sua frente, desejosa por tudo diz: “Mas eu quero!!”

Realmente Luisa demonstra o seu grande desejo pelas coisas. Mas será que é possível satisfazer todos os seus desejos? Será possível não decepcioná-la? É possível Luisa derrubar a construção de Leo que demorou tempo e esforço para empilhar peça por peça? É possível empurrar a Marina do balanço porque ela quer se embalar? É possível deletar o trabalho de seu pai do computador porque ela quer usar? É possível quebrar a louça de cristal da sua avó porque ela quer brincar de cozinhar?

O que Luisa tanto quer?

Luisa quer participar do mundo, quer agir. Ela olha para tudo aquilo que os outros fazem e também quer fazer, pega um objeto fica por pouco tempo e, sem construir ações, larga-o interessada por outro material que encontra no espaço. Porém novamente, sem saber o que fazer, repete esta mesma ação, talvez por falta de interação, de provocações, de tempo de entrega, ela passa a perder seu interesse, pois ainda não descobriu sua capacidade criativa.

Ao mesmo tempo ela busca seus pais na relação de carinho, afeto, confiança, porém encontra-os imersos em seus compromissos, entretidos em seus afazeres, nos celulares, computadores, sem tempo de brincadeira compartilhada, sem tempo de relação. Sem se darem conta, cada um passa a viver em seu próprio mundo, usando a tecnologia e se afastando cada vez mais.

Muitas vezes as pessoas acreditam que aquilo o que as crianças fazem não tem fundamentos e que elas precisam apenas serem cuidadas e entretidas com algo. Há tanta distração que elas ficam sem saber como construir ações, procuram, procuram, procuram, mas ficam perdidas, na dificuldade do adulto em lidar com seus desejos e suas decepções, dão-lhes o celular para que assistam um desenho e, distraídas, permanecem horas a fio com o olhar vidrado na tela.

Neste sentido, ao darem os celulares e tabletes nas primeiras reclamações e as deixarem expostas por longos períodos, os desenhos, os jogos, passam a educar as crianças pelas suas narrativas, pelos seus valores. Com passividade a criança passa a ser formada em uma construção de sujeito que não age, não cria, não pensa por si e apenas reproduz ações. Sendo assim,

como podemos lidar com as decepções de Luisa e ajudá-la a construir suas ações dentro do seu mundo de criança?

Primeiramente é preciso olhar para as crianças de maneira a concebê-las atuantes, capazes de lidarem com seus sentimentos, com suas decepções, de agir e construir conhecimento a respeito de si e do mundo que as rodeia. A partir deste pensamento, sustentar-se em seus valores na formação dos filhos para fazer escolhas a partir daquilo que a família acredita, escolhas conscientes e coerentes.

Nem sempre as escolhas que os pais fazem agradam as crianças, provavelmente seu filho irá se decepcionar, chorar e reclamar ao escutar um NÃO, seja por querer assistir televisão, jogar no tablet, devolver um objeto que estava com outra criança…

Lidar com as decepções e reclamações ao serem contrariadas é um desafio, porém a partir de uma relação de confiança pode-se ajudá-las a lidar com seus sentimentos. Os limites, os contornos, possibilitam olhar ao seu redor, construir sua identidade, sentimento de pertencimento e de autoria em suas ações.

Neste sentido, dizer NÃO para uma criança pode ser a possibilidade de dizer SIM para diversas situações, como a de dispor tempo com presença ao sentar no chão e construir uma torre juntos, de esconderem-se pelos cantos da casa para serem encontrados, de cuidarem de uma boneca, de fazerem passeios com os carros e casas com os blocos. Tempo de descoberta de uma relação, tempo de construção de ações conjuntas, de intimidade, de cumplicidade, de confiança.

À medida que as crianças têm a oportunidade de serem valorizadas naquilo que realizam, passam a perceber-se capaz e a fazer diferentes relações com os brinquedos, a construir narrativas, a mostrar curiosidade por aquilo que as rodeiam. Sem serem telespectadoras, mas de maneira atuante, vivem suas experiências com sentido, interagem, trocam ações, constroem novos significados.

O dia a dia das famílias é muito corrido, com muitas obrigações, porém ao disponibilizarem TEMPO com seus filhos, constroem uma relação íntima e na medida em que eles crescem, passa a ser possível incluí-los nas situações rotineiras de uma casa.

Lembrem-se, um dia as crianças crescerão, o tempo que te falta agora te sobrará depois, mas aquilo que você viveu com seu filho e o que você investiu na formação dele, ficará marcado para o resto de suas vidas!!

 

Andrea JotaAutora: Andrea Jota, sou pedagoga, especialista em Gestão Pedagógica e Formação em Educação Infantil, atuo com crianças há mais de vinte anos, inicialmente com aulas de ballet clássico e expressão corporal, nos últimos quatorze anos tenho-me dedicado à educação infantil. Acredito no protagonismo das crianças, na valorização e respeito às família e no diálogo como um caminho para a conscientização dos cuidados na primeira infância, na formação de sujeitos autores, capazes de transformarem o seu entorno e de se realizarem.

 

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